Governo Lula em 3 anos: economia explicada sem economês
Três anos de governo Lula explicados sem economês
Política Econômica

Três anos de governo Lula explicados sem economês

Introdução

Desde a eleição mais apertada da história recente do Brasil, em outubro de 2022, uma pergunta passou a ecoar em mesas de bar, grupos de WhatsApp e salas de reunião. Lula consegue repetir os resultados econômicos dos seus primeiros mandatos ou o cenário agora é outro?

A resposta curta é: o Brasil mudou. E muito.

A resposta longa é exatamente o que você vai ler aqui.

Este artigo tem um objetivo simples. Explicar, sem economês, sem torcida organizada e sem histeria política, o que aconteceu com a economia brasileira nos três primeiros anos do terceiro mandato de Lula. O que o governo fez. O que deu certo. O que deu errado. E, principalmente, como tudo isso afeta sua vida, seu dinheiro e seus investimentos.

Se você nunca entendeu direito o que é teto de gastos, arcabouço fiscal, Selic, déficit primário ou por que o dólar sobe quando todo mundo entra em pânico, fica tranquilo. Aqui a ideia é explicar tudo como se fosse numa conversa calma, com um café na mesa e sem pressa.

Respira fundo. Vamos começar.

O ponto de partida: janeiro de 2023

Lula assumiu o governo em um cenário bem diferente daquele que encontrou em 2003. Na época, o Brasil crescia com o mundo, a China puxava commodities e havia espaço fiscal. Em 2023, o cenário era outro.

  • Inflação ainda elevada.
  • Juros altos.
  • Contas públicas pressionadas.
  • É uma regra que limita gastos: o teto de gastos.

Logo no primeiro dia útil, Fernando Haddad, recém-nomeado ministro da Fazenda, publicou um decreto revertendo cortes de PIS e Cofins feitos no fim do governo anterior. Não foi um gesto simbólico. Foi um recado claro.

O governo precisava arrecadar mais. E rápido.

Essa decisão já mostrou qual seria o tom da política econômica. Mais presença do Estado. Mais gasto social. E, inevitavelmente, mais impostos para bancar essa conta. Não existe almoço grátis. Nem em Brasília.

Bolsa Família maior e a conta chegando

Um dos primeiros movimentos do governo foi ampliar o Bolsa Família. Mais famílias atendidas. Valores maiores. Um alívio real para milhões de brasileiros.

Segundo os dados apresentados, o custo extra chegou a cerca de 14 bilhões de reais por mês. Isso dá mais de 170 bilhões por ano. Um número grande. Bem grande.

A ideia social é clara. Reduzir a pobreza. Aumentar consumo básico. Estimular a economia pela base. Isso funciona? Em parte, sim.

Mas o problema aparece quando olhamos o outro lado da moeda. De onde vem o dinheiro?

A resposta estava numa decisão tomada ainda antes da posse.

A PEC da Transição e o fim prático do teto de gastos

O teto de gastos limitava o crescimento das despesas do governo à inflação do ano anterior. Era uma regra criada para evitar a explosão da dívida pública.

Lula foi eleito prometendo mais programas sociais, mais investimentos e mais presença do Estado. Só havia um detalhe. Com o teto, isso era impossível.

A solução veio com a PEC da Transição. O Congresso autorizou o governo a gastar cerca de 145 bilhões de reais acima do teto em 2023.

Na prática, o teto continuava existindo no papel, mas tinha sido furado com autorização formal. Era o começo do fim dessa regra.

Esse dinheiro bancou o Bolsa Família turbinado, o reajuste do salário mínimo e outras políticas. Socialmente, o impacto foi relevante. Fiscalmente, o alerta começou a piscar.

E quando o gasto sobe, a próxima pergunta é óbvia.

Quem vai pagar essa conta?

O arcabouço fiscal entra em cena

Para substituir o teto de gastos, o governo apresentou o arcabouço fiscal. Um novo conjunto de regras para controlar despesas públicas.

A lógica mudou. Em vez de crescer só pela inflação, os gastos poderiam crescer até 2,5% acima da inflação por ano, desde que algumas metas fossem respeitadas.

Na teoria, parecia um meio-termo. Nem tão rígido quanto o teto. Nem tão solto quanto gastar sem regra nenhuma.

O Congresso aprovou. O Senado ajustou. A Câmara confirmou. Em agosto de 2023, o arcabouço virou lei.

Politicamente, foi uma vitória importante para Lula e Haddad. O mercado reagiu com cautela. Não era perfeito, mas era melhor do que nada.

Só havia um detalhe. Mesmo com regra nova, o gasto continuava alto. E a arrecadação precisava acompanhar.

A solução? Impostos. De novo.

Reforma tributária: histórica, necessária e polêmica

Aqui entra um dos maiores marcos do governo.

A reforma tributária.

Ela estava em discussão há três décadas. Todos os presidentes tentaram. Nenhum conseguiu. Lula conseguiu no primeiro ano do terceiro mandato.

O sistema tributário brasileiro era um labirinto. Cinco impostos diferentes sobre consumo. Regras diferentes por estado. Alíquotas confusas. Empresas gastando bilhões só para entender quanto deviam pagar.

A reforma simplificou. Criou dois grandes impostos sobre valor agregado. Um federal. Outro estadual e municipal.

Isso facilita a vida das empresas. Reduz litígio. Aumenta a previsibilidade.

Mas nem tudo são flores.

A alíquota estimada gira em torno de 28%. Muito alta. Pode fazer do Brasil o país com maior carga tributária sobre consumo do mundo.

Ou seja, o sistema fica mais simples. Mas o imposto pode ficar mais pesado.

É como trocar um manual confuso por um boleto mais caro. Você entende melhor, mas dói igual.

2023: números positivos e um problema escondido

Apesar das críticas, 2023 terminou com dados econômicos bons.

  • O PIB cresceu cerca de 3,2%.
  • O desemprego caiu para perto de 7,8%.
  • Milhões saíram da pobreza.
  • A inflação ficou dentro da meta.
  • A bolsa subiu mais de 20%.
  • O dólar caiu e ficou abaixo de 5 reais por um período.

Parecia um ano bom. E foi, em vários aspectos.

Mas havia um grande problema por trás dos números.

O governo gastou cerca de 230 bilhões de reais a mais do que arrecadou. Bem longe da promessa de déficit zero.

Ou seja, o crescimento veio. Mas a conta ficou aberta.

E conta aberta em economia uma hora chega.

2024 começa com mais impostos

Janeiro de 2024 chegou e, com ele, novos aumentos de impostos. PIS e Cofins sobre diesel, biodiesel, gás de cozinha e até painéis solares.

A arrecadação precisava subir. Não tinha mágica.

No meio do ano veio a famosa taxa das blusinhas. Compras internacionais de até 50 dólares passaram a pagar imposto de importação. Somando ICMS, a carga chegava perto de 45%.

O efeito foi imediato. Parte dos consumidores desistiu de comprar fora. A popularidade da medida despencou.

Não era difícil entender o motivo. Quando o imposto aparece direto no carrinho de compra, ninguém finge que não viu.

Juros, dólar e a briga com o Banco Central

Enquanto isso, a relação entre Lula e o Banco Central ficou tensa.

Depois de alguns cortes na Selic, os juros voltaram a subir. O motivo principal foi a escalada do dólar e a pressão inflacionária.

Lula criticou publicamente o presidente do BC, Roberto Campos Neto. Disse que havia viés político. O discurso colou em parte da base. Mas o mercado reagiu mal.

Em 2024, o dólar passou dos 6 reais. A inflação estourou o teto da meta. O Banco Central respondeu como sempre faz.

Subiu juros.

É chato. Trava a economia. Mas é o remédio clássico.

Campos Neto saiu no fim do mandato. Gabriel Galípolo assumiu. Muita gente esperava juros mais baixos. Não foi o que aconteceu.

A Selic subiu até 15%. A maior em quase 20 anos.

O motivo foi simples. Inflação fora da meta. Dólar pressionado. Mercado de trabalho aquecido.

O Banco Central fez o que os manuais mandam fazer. Mesmo que doa.

2024 termina em crise cambial

Dezembro de 2024 foi um choque.

O dólar bateu 6,26 reais. Máxima histórica.

O Banco Central fez a maior intervenção cambial em 25 anos. Vendeu bilhões de dólares para segurar a moeda.

O Ibovespa caiu forte. O real foi uma das moedas que mais se desvalorizaram no mundo naquele ano.

O clima era pesado. No início de 2025 parecia tudo menos tranquilo.

Mas o Brasil, como sempre, resolveu surpreender.

2025 começa com ruído e termina com alívio

Logo no começo de 2025, uma norma da Receita Federal sobre monitoramento de transações via Pix e cartão gerou pânico. Vídeos viralizaram. Teorias surgiram. O governo tentou explicar. Não deu tempo.

A norma foi revogada.

Foi um erro de comunicação claro. E custou caro em imagem.

Depois disso, vieram novos pacotes de impostos. A oposição contabilizou mais de 20 aumentos ou criações desde 2023. O debate ganhou força.

Ao mesmo tempo, o governo tentou taxar investimentos isentos, como LCI, LCA, CRI e CRA. A proposta caiu no Congresso. Uma derrota política relevante.

Mas o cenário macro começou a melhorar.

  • O dólar recuou para perto de 5,40.
  • O desemprego seguiu nas mínimas históricas.
  • A bolsa bateu recordes acima de 160 mil pontos.
  • A inflação começou a dar sinais de controle.

A expectativa passou a ser de cortes na Selic em 2026.

Depois da tempestade, veio uma calmaria parcial. Parcial, porque no Brasil nunca é total.

Afinal, o que tudo isso significa para você?

Se você chegou até aqui, parabéns. Não é todo dia que alguém encara a economia brasileira de frente.

A resposta curta é esta.

O governo Lula apostou forte em gasto social, presença do Estado e estímulo à base da pirâmide. Isso ajudou o emprego, renda e consumo.

Para bancar isso, aumentou impostos e flexibilizou regras fiscais. Isso gerou crescimento, mas também déficit, pressão no dólar e juros altos.

O Banco Central agiu de forma dura para conter a inflação. Mesmo com críticas políticas.

O resultado foi um país que cresceu, empregou mais, reduziu pobreza, mas pagou o preço em juros altos, impostos maiores e volatilidade cambial.

Não é uma história de vilões e heróis

É uma história de escolhas. E toda escolha econômica tem custo.

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